sábado, 27 de outubro de 2012

Onde brilham os olhos (a)teus



My poor heart is sentimental
Not made of wood
I got it bad, and that ain't good
- Duke Ellington, 1941

Meu pobre coração tem sentimentos
Não é feito de madeira
Isto doeu, e eu não gostei
- Duke Ellington, 1941


Nome da cidade, tanto de tanto de dois mil e tanto.

Nome do destinatário:

E então, como é que isto aconteceu? Como é que o carinho de um momento para o outro tornou-se indiferença ou frieza? Como as pessoas podem se tornar mesquinhas ao ponto de terminar uma amizade através  de duas linhas e ser tão duro ao dizer “obrigado pela compreensão”  como se fosse um atendente de telemarketing? Não, não entendo.  E na verdade nunca vou conseguir compreender. Afinal, pelo que eu me recorde, eu não sou tão louca assim, eu nunca te fiz mal. E você havia me dito isso um milhão de vezes, que eu te fazia bem.

Acontece! O carinho acaba e a vontade de compartilhar os momentos vão se tornando desnecessários. Um esbarrão não é mais visto com alegria, e se esse acontecer, qual o tamanho do constrangimento? Preferíamos ter desviado, não é mesmo? Atravessado a rua ou simplesmente torcer para que o sinal abrisse o mais rápido possível para fugirmos dali. Mas não,  em absoluto,  seja lá o que tivemos de ligação não deveria ter sido rompida como foi. Isso te doeu? Te custou quantos segundos para me despedaçar?

Eu estava feliz quando te conheci, e você precisava compartilhar a catástrofe que havia acontecido em sua vida. Eu te catei e te carreguei. Faria isso mil vezes se preciso fosse, porque confiava em seu sorriso. E fomos, aos poucos nos tornando íntimos. Eu era necessária para você, e gostava de cuidá-lo à distância, e vejamos bem: nunca disse que o amava. Disso você não poderia ter tido medo.

Era diferente. Gostava da sua moto, do seu violão, do seu cachorro. Gostava do pé de limão em frente a sua casa e dos seus hábitos. Gostava de compartilhar o meu sorriso, e muito além,  gostava de sua companhia quando as coisas apertavam e eu sentia saudade de um-não-sei-o-quê que era-me vago. Gostava de tomar todas enquanto conversávamos, enquanto você me mostrava seu canto preferido. Gostava de te enviar músicas e de te dar conselhos. Gostava do seu cuidado para comigo. E no dia em que você foi parar no hospital, eu realmente fiquei preocupada.

Agora estou  magoada, eu sei que isso também vai passar daqui a algum tempo, e como não posso mais te escrever, por aqui envio a ti essa carta. Quiçá você me leia.  Ainda continuo te desejando que a vida seja doce, não seria diferente. Veja bem: magoar-se é totalmente diferente de ter rancor.
  
Ainda quero acreditar que não foi você quem escreveu a nossa última correspondência, caso contrário,  nunca te conheci realmente.


Nome do Remetente.



Moon of the Day