quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Para Francisco


Doce Fernão,


Faz um exato um ano desde a nossa partida. Volto para dizer que não há rancor, não há mágoa, não há mais. Já faz um ano em que enviei  uma carta muito brava -  um dia após de ter te enviado uma repleta de bons sentimentos -  mas após seis meses (acho que bem menos) não tinha mais o porque disso. Somente precisava de um tempo. Um tempo para ajustar os sentimentos. Um tempo para novamente te desejar tudo o que sempre desejei. Um prazo para eu digerir. E eu demoro um pouco quando o assunto tem determinada importância. Há que se concordar, algumas pessoas nunca o fazem de volta, ou quando o fazem, jogam ao vento ou em nosso rosto o (des)culpado. Eu quis primeiro me permitir, me perdoar, sem culpar e sem ter culpas de sua ida.  


Hoje, um ano se faz desde a nossa ausência. Já peguei a imaginar quantas cartas não havíamos de ter escrito. Quantos sentimentos não havíamos de ter trocado. Quantas bobagens e quantos vinhos daqui e cerveja daí não teríamos tomado e falado. Será que eu já teria aprendido algo sobre o baseboll? Ou sobre o basquete? Não sei. Ainda acho que não. Mas teria me esforçado a aprender. E ainda assim assisti alguns jogos do Inter, vibrando para que seu time ganhasse. E hoje, quem sabe eu teria perguntado sobre sua moto, seu mestrado, seu violão e sobre seu cabelo. Faceiro como era (e imagino ser ainda) sei que riria, sei que passaria a mãos por entre os cabelos negros e lisos e seus olhos fechariam um bocado pelo sorriso. Quiçá me chamaria de doutora. Contudo, um doutora nunca formal, talvez como de um de seus e-mails que eu recordo (porque o que restou foi a memória) “quisera eu ser um ‘broboleto’ para ver esse jaleco esvoaçante pelos corredores e por mais que eu tentasse não te alcançava” ou ouvir que “entre um ronco e outro, quando sei de seus plantões, te abençoo”. 


Na verdade, Fernão, minha doce gaivota, eu sempre te quis bem. Desde antes do dia de nossa “briga”. Também não foi desavença, não houve discussão, nem barulho, nem ofensa. Não houve nada.  E hoje, pelo seu aniversário, eu decidi que já era hora de nos falarmos. Eu não espero que tenhamos mais contato, apesar de ter ouvido que um dia a gente conversaria. Não acredito e nem penso que será assim. Na verdade, eu  não queria ter desligado da forma como foi: pior do que quando se apaga uma lâmpada ou quando se corta o cordão umbilical sem deixar o recém nascido respirar. Mas no interior eu acredito que a gente não poderia ficar se queimando como uma vela: se derretendo e se perdendo aos poucos, isto é adiar o que era inevitável. Eu me machuquei e te feri. Você se machucou e me feriu. Estamos curados? Um ano depois, eu estou. Você sabia disso desde o dia que nos demos adeus (que no fundo eu iria suportar, porque eu sempre soube me virar e reinventar). Temos cicatrizes? Lembramo-nos de nós? Pode ser. Talvez por isso eu tenha juntado minha coragem para te escrever. E de minha parte, saiba que estás desculpado. E eu sempre terei carinho por ti, pelos nossos momentos e continuo a te desejar: saúde, dias de sol para animar a alma, noites de estrelas para aquecer o coração e leveza de espírito para viver sua vida. E  como naquela prece irlandesa da qual falávamos “Que Deus te guarde na palma de Sua mão”.


Feliz Aniversário, Francisco.


PS: Lembro-me de seu cabelo negro e chego até mesmo a imaginar que já há alguns fios brancos a se misturar, junto aos seus cinquenta e poucos anos.  

Moon of the Day