domingo, 30 de setembro de 2012

Pequenos acasos do coração



Você já se apaixonou? Eu já, algumas vezes. 

Meu primeiro amor foi meu vizinho, um ano mais velho, que ficava me chamando da varanda de sua casa, quando mal sabíamos conversar, e eu envergonhada fingia não escutar. 

Meu segundo amor foi o amigo dos meus irmãos, sete anos mais velho, que costumava cuidar de mim quando meus irmãos saiam comigo (como desculpa) para namorar e me deixavam brincando no jardim  e falavam para o garoto ruivo de tatuagem de dragão  “corre o olho nela”. Fato é: correu tanto que aos 14 anos meus, demos o primeiro beijo. E muitos e muitos seguidos, até mais ou menos cinco anos atrás. Mas ele se mudou e toda vez que ele vinha ao Brasil, quando comprava sua passagem, tinha a audácia de me escrever “se está com algum namoradinho, já vou  avisando que eu estou chegando, menina”. Esse sempre me chamou assim, até  há um mês atrás, quando me ligou para almoçarmos. E eu fui? Não, não pude ir. Estava viajando. 

E um mês após sua volta para o estrangeiro, dentre tantas, conheci o meu terceiro amor, dezesseis anos mais velho.  Me conquistou pelas palavras e por uma foto de sorriso largo, onde eu vi as covinhas mais encantadoras de minha vida. Um conquistador nato, que enchia minha caixa de entrada com poemas, textos e músicas. Um fato engraçado: ele foi ao meu aniversário, quando eu tinha quatro anos de idade. E naqueles braços  encontrei uma parte minha, uma parte perdida dele, um sorriso dizendo “você cresceu, baixinha”. E numa noite, numas férias de janeiro, ele veio do nordeste e nos abraçamos pela primeira vez muito apertado e nos beijamos. De vez em quando ele ainda me liga, conversamos gentilmente ou não, e dizemos coisas legais na maior parte do tempo. Mas como todos meus amores, esse também tinha que ir embora. 

Meu quarto amor, conheci de esbarrão, vinte anos mais velho. Tinha também covinhas, e alguns dois ou três fios de cabelos brancos, na fronte e nas têmporas. Escolhi alguns, para quando ele olhar no espelho, se lembrar de mim.  Com ele viajei e tive (e ainda tenho) as melhores conversas da minha vida. É o braço mais seguro em que eu já pousei. Vem do sudeste, dos caminhos do interior de  São Paulo, puxa o erre, gosta de sertanejo e rodeio. Enquanto faço-o ler para mim meus livros de Pessoa, Neruda ou Tagore; Enquanto eu preparo o café e ele faz o mousse; Enquanto eu escuto Jeneci ou Vinícius, ele serve o vinho e diz que agora gosta das minhas músicas, tão diferente das dele. E arrumamos a cama juntos e sim, ele nunca reclamou que eu durmo muito (porque quando acordo, ou finjo que ainda estou dormindo só para ver se ele está, vejo-o me olhando calmo e quase sempre imóvel na cama para não me acordar), ou que eu mexo demais a noite (ele me abraça  ou se encolhe no canto para que fique com o espaço maior, ou com os três travesseiros, ou com a maior parte da coberta). E tem a maior paciência do mundo quando eu tenho minhas crises existenciais. Penso que um dia vamos nos casar!

Já amei um socialista, de barba e ativista político que liderava (e até hoje é o cabeça) das greves nas universidades.  Além de ter um nome árabe, uma descendência árabe e um jeito arabesco.  E uma voz doce. A mais doce.  Ainda temos contato. Embora ele evite conversar comigo. E depois que o amor acabou, nunca mais quis me ver. Não que eu tentei, mas assim foi melhor. Depois fiquei sabendo que ele havia comprado um apartamento para morarmos juntos e que faria uma surpresa a mim. E outro dia, no início das greves o vi dando palestra, passou no jornal das 20 horas, de relance. Liguei outro dia quando tinha bebido algumas para desejar-lhe sorte na vida. Ouvi do outro lado “ainda gosto de ti, se cuida”. 

Já cuidei de um coração do sul. Esse era vinte e quatro anos mais velho. E tinha o cabelo mais bonito que eu já vi em toda vida. De descendência  basca, bonito de doer, com seus 1, 78 metros. Trocamos cartas-emails por quase três anos, mas como o apelidei de Fernão Capelo Gaivota, sabia que cedo ou tarde, ele, iria voar. Intuição. E ainda assim sou grata pelo carinho e encontro espiritual.

Já amei um cabeludo na adolescência, tipo surfistinha, loiro, que não tinha nada na cabeça. E eu gostava do risco de gostar dele. Também outro amigo do meu irmão, o melhor amigo para ser exata. Hoje ele tem os cabelos curtos e já passou por um bocado de coisa pesada na vida. E quando a gente conversa ele me chama de “amiga de fé”.  E quando nos esbarramos,embora sejam em raras ocasiões, damo-nos um abraço apertado, um olá com os olhos e alma e um estalinho, mas por cuidado e carinho do que por qualquer outro motivo.

E uma vez fui confundida com a noiva de um amor da adolescência. Que para tentar ficar comigo após anos (relembrar o passado, só pode), não me disse que era noivo quando me convidou para sair. Até que em uma mesa de conhecidos (dele) me soltam, “fulano, sua noiva é linda!” e eu juro que se tivesse bebendo teria engasgado. Respondi “não, não sou a noiva, acho que esqueceram de me contar”.  Um minuto de silêncio, constrangimento. Um trago longo do cigarro do noivo, uma encarada mortífera minha. Um pensamento do tipo “cretino!”. Um paga a conta rápido e vamos dar uma volta. Sentamos na esquina da Praça da Sé, dei-lhe um beliscão, um adeus, um riso e um ”sempre amigos, e só isso ok!?! Só isso”. Afinal, acabei rindo da situação e toda vez que nos esbarramos, agora ele com a noiva certa, eu rio disso e ele me sorri como cúmplice.

Já beijei um seminarista (que não por minha causa – seria audácia demais – largou a batina). Nos encontramos anos depois na famosa Festa do 12, em Ouro Preto – MG. 

Já tive amores paixões desajustadas. A maioria. É assim até hoje. Costumo classificá-los em zonas de perigo conforme minhas borboletas batem asas dentro de mim. Além do mais, como Clarice Lispector escreveu "o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão". Mas isso não quer dizer que de vez em quando eu não me sinta um pouco só, principalmente porque hoje marcam seis graus em Barbacena; principalmente porque as "minhas estorelhas amorosas continuam não dando certo", mas isso também logo passa.

sábado, 22 de setembro de 2012

Possibilidade de Amor


É preciso enxergar além dos olhos 
É necessário viver a vida como ela é
É prudente aceitar as coisas como elas são... 
Para encontrar a possibilidade do amor! 

Não é o amor entre um homem e uma mulher 
É o amor entre os povos, a própria família 
...Os amigos, os animais 
...E com a vida!

A necessidade de saudade 
A saudade arrependida
A felicidade que incendeia 
A flor que nasce 
O anseio de ficar sozinho
A inspiração de estar com todos 

A amor desejado! 
O amor que se deseja! 
A possibilidade do amor 
A vontade de amar!

...

Moon of the Day