sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Para Barbacena, um Grupo A.



Na verdade, não é exatamente a Cidade das Rosas que vai me deixar saudade. Não. Na verdade, são as raízes que plantei aqui que me farão sentir falta.

A apenas uma semana do início das férias me vejo em um novo recomeço: o internato rural. Confesso que ainda não comecei a “desmontar”  minha casa, nem tampouco a arrumar as malas ou a encaixotar tudo que preciso para meu novo destino: Prados. É como se ainda eu fosse a caloura que observava os veteranos de jaleco indo e vindo dos ambulatórios, enquanto o receio deles eram a clínica médica, o meu era ainda a anatomia, a histologia e porque não a embriologia. Então tudo foi acontecendo rápido demais e a gente na verdade não se dá conta disso, de que daqui há um ano e meio estamos formados.

Daqui levo alguns amigos roubados, conquistado com o tempo ou com a convivência. Levo os sorrisos e as alegrais de vocês em minha bagagem. Levo choros também. Levo desejos de um futuro bom a todos que por mim passaram e que me acrescentaram, positiva ou negativamente, pois até mesmo das diferenças a gente tira algumas concluões, não é mesmo?

Agora, estaremos iniciando uma outra etapa, um novo momento de nossa formação acadêmica. Estaremos em dupla, e que esta dupla suprima a falta que vocês outros me farão, porque farão e disso não tenho dúvidas!

Eu poderia dizer a vocês uma benção irlandesa a qual muito gosto, um mínimo pedacinho diz  mais ou menos assim: até que de novo nos vejamos, que Deus os guardem na palma de Sua mão. Mas disso eu também não tenho dúvidas: você tem um lugar no céu. Então eu decidi terminar do jeito que comecei, porque a vida é um nascer, viver, se ir sem fim e vocês  são meu grupo de almas que eu sempre quero ver e ter em todas minhas vidas.

Lembro ainda que "tem coisas que não queremos que aconteça, mas temos que aceitar. Coisas que não queremos saber, mas temos que aprender. E pessoas que não podemos viver sem, mas temos que deixá-las partir." Por isso: Na verdade, não é exatamente a cidade das Rosas que vai me deixar saudade. Não. Na verdade, são as raízes que plantei aqui que me farão sentir falta.

Com todo carinho do mundo,


Lari

PS: Dedicado ao Zé, Ju, Pri, Gui, Leo, Gi e Fê

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Para Francisco


Doce Fernão,


Faz um exato um ano desde a nossa partida. Volto para dizer que não há rancor, não há mágoa, não há mais. Já faz um ano em que enviei  uma carta muito brava -  um dia após de ter te enviado uma repleta de bons sentimentos -  mas após seis meses (acho que bem menos) não tinha mais o porque disso. Somente precisava de um tempo. Um tempo para ajustar os sentimentos. Um tempo para novamente te desejar tudo o que sempre desejei. Um prazo para eu digerir. E eu demoro um pouco quando o assunto tem determinada importância. Há que se concordar, algumas pessoas nunca o fazem de volta, ou quando o fazem, jogam ao vento ou em nosso rosto o (des)culpado. Eu quis primeiro me permitir, me perdoar, sem culpar e sem ter culpas de sua ida.  


Hoje, um ano se faz desde a nossa ausência. Já peguei a imaginar quantas cartas não havíamos de ter escrito. Quantos sentimentos não havíamos de ter trocado. Quantas bobagens e quantos vinhos daqui e cerveja daí não teríamos tomado e falado. Será que eu já teria aprendido algo sobre o baseboll? Ou sobre o basquete? Não sei. Ainda acho que não. Mas teria me esforçado a aprender. E ainda assim assisti alguns jogos do Inter, vibrando para que seu time ganhasse. E hoje, quem sabe eu teria perguntado sobre sua moto, seu mestrado, seu violão e sobre seu cabelo. Faceiro como era (e imagino ser ainda) sei que riria, sei que passaria a mãos por entre os cabelos negros e lisos e seus olhos fechariam um bocado pelo sorriso. Quiçá me chamaria de doutora. Contudo, um doutora nunca formal, talvez como de um de seus e-mails que eu recordo (porque o que restou foi a memória) “quisera eu ser um ‘broboleto’ para ver esse jaleco esvoaçante pelos corredores e por mais que eu tentasse não te alcançava” ou ouvir que “entre um ronco e outro, quando sei de seus plantões, te abençoo”. 


Na verdade, Fernão, minha doce gaivota, eu sempre te quis bem. Desde antes do dia de nossa “briga”. Também não foi desavença, não houve discussão, nem barulho, nem ofensa. Não houve nada.  E hoje, pelo seu aniversário, eu decidi que já era hora de nos falarmos. Eu não espero que tenhamos mais contato, apesar de ter ouvido que um dia a gente conversaria. Não acredito e nem penso que será assim. Na verdade, eu  não queria ter desligado da forma como foi: pior do que quando se apaga uma lâmpada ou quando se corta o cordão umbilical sem deixar o recém nascido respirar. Mas no interior eu acredito que a gente não poderia ficar se queimando como uma vela: se derretendo e se perdendo aos poucos, isto é adiar o que era inevitável. Eu me machuquei e te feri. Você se machucou e me feriu. Estamos curados? Um ano depois, eu estou. Você sabia disso desde o dia que nos demos adeus (que no fundo eu iria suportar, porque eu sempre soube me virar e reinventar). Temos cicatrizes? Lembramo-nos de nós? Pode ser. Talvez por isso eu tenha juntado minha coragem para te escrever. E de minha parte, saiba que estás desculpado. E eu sempre terei carinho por ti, pelos nossos momentos e continuo a te desejar: saúde, dias de sol para animar a alma, noites de estrelas para aquecer o coração e leveza de espírito para viver sua vida. E  como naquela prece irlandesa da qual falávamos “Que Deus te guarde na palma de Sua mão”.


Feliz Aniversário, Francisco.


PS: Lembro-me de seu cabelo negro e chego até mesmo a imaginar que já há alguns fios brancos a se misturar, junto aos seus cinquenta e poucos anos.  

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Um café e um amor, sem gelo por favor

Imagem: Scott Bakal


Encontramo-nos no corredor, entre um passo e outro atrasados, entre muitos que passam por ali.
Sorriu. Sorri. Sorrimos. Demo-nos as mãos e um beijo na testa recebi. (Para quem nunca teve a sensação, é um dos melhores aconchegos que se tem).
"Por onde você tem andado, menina?" Eu devo ter algo assim.
"Por aqui."
"Por aqui, sei que não... Te procurei. Estavas de férias, não foi?"
"Sim..."
"Voltastes quando?" (Gosto das conjugações que ele usa). Então reparo que ainda estamos de mãos dadas, ambas, no corredor de entrada. E eu tenho a sensação de sentir o rosto em chamas, porque ele também olha em direção as nossas mãos.
"Há alguns dias..."
"A que horas começa o plantão?"
"Agora, às 08:00, na pediatria"
"Pois ande, os meninos terão uma certa sorte ao ver a doutora"
"Obrigada"
"E no fim do dia me conte como foi o seu. Um café?"
"Uma poesia?"
E assim foram dois partos e meio (pois um, a pequena não quis esperar por ajuda) e muitos recém nascidos a examinar. O primeiro foi Miguel. Vieram depois Ana Vitoria, Emanuele, Matheus e vários outros a perder a conta. E agora, nesse instante: tomamos um café enquanto eu faço a poesia. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Cada aeroporto um nome no papel


"Como dizer adeus para alguém que você nunca imaginou sem?"


Tenho pensado em você e em pontes aéreas. Nesses salões, nesses vãos enormes onde  transeuntes se esbarram e seguem para seus destinos. Naquele som alto vindo de todos os lugares, sexos,cores, nacionalidades e trejeitos.  Tantos estranhos. Tantos olhares.

Tenho pensado em você e em pontes aéreas. E na incerteza do lugar, porque geralmente, quem embarca, por mais que esteja bem, costuma trazer lembranças, mesmo quando se leva na mala somente novas promessas.  E o significado de aeroporto é um tanto quanto capcioso: terreno vasto, com disposição e instalações apropriadas à partidas e chegadas.

...


Estava ali, tinha que esperar agora seu embarque. Nada melhor que procurar um local mais confortável para sentar-se.  Melhor seria n’algum que  ninguém pede licença para passar, ou que passasse em cima, ou que não passasse. E nesse instante, em poucos passos, pensou em sua estante, nos livros que foram escolhidos pelo tom, pela capa, pelo nome, pelo prefácio e um pelo epílogo. Era bom ler. Devorar livros, entrar em seus países e sentir parte da história. Livro bom, para ela, era exatamente aquele que não fazia perceber que era madrugada, que não fazia perceber que te chamavam, que a história  era sua, ou mais, que o autor escreveu a ti. Era assim antes. Antes deles terem a maldita ideia de lerem juntos, um para o outro.

...


Ele estava sentado ali, bem ao lado, e levantou o olhar quando ela adentrou ao café, mas foi direto para as prateleiras de livros. Achou graça em seu óculos e no modo como ela arrastava sua mala. Gostou dos cabelos longos, sorriu. Bebeu um gole de seu cappuccino e voltou a observá-la. Enquanto ela passava o indicador nos títulos e folheava alguns. Levantava a sobrancelha, torcia a boca e punha-os de volta em seus lugares. Engraçada, para onde vai? Seria bom ouvi-la lendo, pensou.

...


Ela procurava algo para ler, mas não queria escolher por escolher.  Aquele livro seria seu amigo por algumas longas conexões. E livro mesmo, torna-se amigo para a vida toda, por isso não queria ser displicente. Pensou em antes. Pensou no quanto gostava de ler para aquele cara e quando descobriram isso, num leve impulso após amassarem os lençóis, tornou-se hábito. Escolhiam a  maioria juntos e embora tinham dito que cada um leria um  capítulo, geralmente, ela era os olhos e a boca do autor, enquanto ele eram os olhos para ela, sua voz rouca e suas coxas. Para quê lerei, se leio você. E voltar a escolher um livro sozinha, após esses costumes, tornava-se tudo mais difícil, entendiante. Mas não impossível.

...


Ele tinha esperança que ela se sentasse no café. Puxaria papo? Faria com que ela percebesse seu olhar? Mas não o fez, ela não se sentou. Viu-na escolher um livro de capa azul, ao mesmo tempo levantar os pés e sorrir, e pagá-lo, junto com um café sem açúcar e também sem adoçante para viagem. Levou consigo alguns guardanapos. E ele, para observá-la melhor pagou seu cappuccino e seguiu em direção.

...


Se ele estivesse aqui eu leria para ele. Se ele estivesse aqui decerto leria para ele. Leria para ele esse livro de capa azul. Eu leria para ele desde a primeira vez que eu o vi. Talvez por isso nos demos bem. Porque éramos livres e líamos um para o outro. Eu podia olhar para o lado e ele ia acompanhar meu olhar. E se tivesse alguém bonito, como apareceu agora esse homem em minha frente, eu olharia e ele sutilmente  me diria que também tinha gostado, só para me fazer desviar o olhar. E eu iria gargalhar e dizer que  o dividiríamos então. Esse era o nosso jeito. Então, ao invés de ler, procurou por papel para escrever. E tudo começou ali, com o guardanapo da cafeteria.

...


Ele não tirava o olho. Tem cara que gosta de ler, pela forma como passava os dedos na prateleira. Mas agora começou a escrever. Queria que ela lesse para mim esse livro de capa azul. São os dedos, os olhos, os óculos. São os olhos atrás do óculos. E ainda tem essa mecha de cabelo que teima em cair.  Ela está ali, sentada na minha frente, remexendo na bolsa e começa a tirar tudo de dentro procurando por algo. Uma caneta. Ela pegou uma caneta e se inclina, apoiando o guardanapo no livro. Estou completamente curioso com essa forma em minha frente. Quem compra um livro com tanto zelo, quer logo começar a ler, e não a escrever. Por que aqui, no aeroporto? Todos os aeroportos são iguais. Pessoas e mais pessoas indo e vindo. É que a gente nunca deve é olhar.

...


Tinha percebido sua presença. Mas o que ela queria mesmo saber era se ainda conseguia ler. Eu ainda consigo ler sozinha? Eu ainda consigo ler para mim? Quando se tem um hábito, começar outro, ou quebrar o primeiro, costuma trazer certa ansiedade e desconforto. Eu tinha um dragão em casa, e enquanto derrubávamos jarras e copos, fagulhas e corpos, a gente lia. A gente se lia. E eu tinha o mapa mundi desenhando por ele. Dos meus pés até a minha artéria femoral. Na verdade formávamos a pangeia e tudo entorno era nossa pantalassa. E podíamos mergulhar. Tu me salvas, perguntei.  Linda, você é quem me ensinou a nadar, ele dizia. Mas agora, tu sabes, dizia rindo! E nosso lençol caia por cima, enquanto ele virava meu barco.  Disso eu tenho saudade, dos nossos livros. E de nossas férias.

...


Talvez ela ainda se lembre de nossas férias. De nosso abril. Tomara. Ela não pode esquecer assim. Será que ela me esqueceu? E se por impulso ela começar a ler para outro? Não. Quero tirar isso de minha mente. Aqueles olhos castanhos, aqueles lábios, aquela voz rouca. E se ela começasse a ler para outro, com a sua pontuação e entonação, ele logo se apaixonaria. Mas antes, se eles começassem a ler juntos, é porque ela já estava apaixonada. Ela não leria para mais ninguém que não tivesse despertado amor. Disso eu tenho medo. Quero de novo levá-la para as docas, quero de novo encostar em seu colo no banco da praça, quero vê-la descalça com os pés sobre os meus. Quero seus livros em meu colo, quero seu corpo em cima do meu. Mas, e se ela desistiu disso tudo, pois da última vez ela também levou o Neruda, o Walt Whitman e o Maiakovsky.  E se ela estiver agora em um aeroporto, pois ela escreveu e avisou que partiria, e se ela estiver sentindo vontade de ler a alguém? E se lá, ela encontrar, em um café, Meu Deus, como ela ama aqueles cafés amargos! E se ela encontrar alguém que queira ler para ela? E se ela quiser ler para ele? No aeroporto há várias histórias  prontas para serem contadas, conhecidas, entregues, escritas. E ela deve estar lá, sentada em um canto confortável, com seus óculos e um café. Eu sempre ficava meio bobo lendo a sua boca. Será que você está perdida, por não ter ninguém para ler? Ou será que nesse momento eu teria que fazer outras de minhas brincadeirinhas, quando percebia que ela estava admirando outro homem mais bonito e dizia também que  gostei, só para ela voltar seus olhos a mim?

...


Se ele estivesse aqui, leria para ele. Se ele estivesse aqui. Mas não está, oras.Tenho que me acostumar. Tenho que parar de lembrar de nossas férias, de nossa doca, de nosso corpo. Tenho que parar de lembrar de seu sorriso e de sua voz. Tenho que remar. Estou em um aeroporto e isso demais me assusta. Estou  sentada aqui, com meu livro de capa azul, sem conseguir abri-lo e a minha frente, me olham, segurando um guardanapo. E o meu papel acabou. E o rosto dele, se você também o visse é do jeito que se apaixonaria, sorri timidamente. Nesse instante ele  caminha e senta-se ao lado. Será que eu lerei para ele?


...



Perguntarei a ela, essa menina de óculos se ela precisa de mais papel. Sentarei ao seu lado e mesmo que ela não leia para mim, acompanharei a forma de sua boca, tácita. E se ela me permitir, tomarei o livro de sua mão e escolheremos um outro juntos. Os aeroportos são sempre um mistério.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Até quando?


Eu nunca tive um namoro assim. Vazio, fútil e  mutilado. Nunca conheci uma pessoa tão machista e rochosa. Me sinto cada vez mais aprisionada na minha própria jaula. Aceitando ser julgada, pisoteada e criticada a cada respiração. Eu não sei o que é amor. Eu esqueci. Vejo casal sorrindo na rua e sinto vontade de chorar. Ouço casais fazendo planos juntos e invejo. Por que eu não mereço? Por que tentam me fazer acreditar que eu não posso ter amigos homens se eu  não quiser ser taxada de piranha? Cansa! Namorar cansa! Odiar quem você ama, cansa! Amar quem se faz odiar, cansa! Qual meu papel nessa história? Abaixar a cabeça e aceitar uma pessoa indivualista, fria, vingativa e criada numa redoma onde alguns valores e carater são completamente diferentes do que minha familia e principalmente, minha experiência de vida me ensinram? Estou há meses tentando expurgar esse câncer de mim. Mas está cada vez mais dificil. Não consigo entender o que me prende, já que não há abslotumamente nada que me faça sentir bem.
Eu não posso ter amigos homens. Não posso ir a praia. Não posso usar tal biquini. Não posso ver minhas amigas. Não posso passar minha folga longe. Não posso viajar sozinha. Não posso receber sms. Não posso usar Twitter. Não posso dormir no meu apartamento. Não posso sair pra jantar em pernoites antes de brigar. Não posso... não posso.... não posso.... Não posso viver! Que raio de macumba foi essa? Deus, afasta de mim quem não me acrescenta. Afasta de mim uma familia que só pensa no próprio umbigo e acha que dinheiro compra caráter. Livrai-me de todo o mal. Amém.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Quase como andar de bicicleta



"Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele.
Guardei a minha no bolso. 
E fui."


Eu ainda me pergunto como você tem cortado seu cabelo, porque eu gostava dele maior. Se ainda tens andado de moto nos finais de semana. Se a tatuagem da perna foi terminada. Se vendeu a casa ou se começou o mestrado.


Eu ainda me pergunto o motivo pelo qual nunca te ofendi, nem verbalizei (in)corretamente todo o meu comedimento e descrença. Vai saber. Eu não te mandei ir a merda. Deveria. Deveria? Não, não sei mais ( o momento já passou). Apenas seguimos os nossos caminhos. Uma droga não ter podido te abraçar. Talvez eu tivesse sentido falta não do cheiro do perfume, mas do corpo. Não dos dentes, mas da boca. Não da falta de conversa, mas do diálogo.


A sensação foi a de uma mulher grávida prestes a dar a luz a um prematuro, ou tido a bolsa rota no meio do transito, no meio da missa, no meio da prova. No meio do nada. Se tivesse sido uma pequena cirurgia eletiva, não teria sentido tanto. Sabe por quê? Porque essas cicatrizes costumam ser mais bonitas, retilíneas e nós sabemos dizer a história pregressa da nossa dor. E em um acidente, o que fazem é tentar juntar os pedaços, colocar as pontas nos lugares e suturar, tentando tornar o corpo/a pele/ a alma mais equilibrados. E nesses casos nunca sabemos dizer o momento exato do impacto e a única palavra que mais se houve deve ser "não foi por querer".

E assim, todos nós passamos de um per, para um pós operatório. Um remendo dado (muitas vezes mal feito) e uma sala para verificarmos se os nossos dados vitais estão nos valores de referência desejáveis. E quando teremos alta? Quando julgarem que não corremos mais risco. E quando não corremos mais riscos? Não sei te dizer, pois a cada abrir de olhos, a cada respiração, a cada pensamento é para mim um novo risco. E vamos assumi-los. E vamos muitas vezes desorientar algumas pessoas, assim como também farão conosco... Mas se respirarmos fundo e retirarmos toda essa nuvem cinzenta da frente, veremos que numa sala de espera, pode haver alguma pessoa preocupada com você. E essa pode te ajudar a passar o filtro solar nas cicatrizes que você não alcança (não digo ficar trocando o curativo) e nesse momento você descobre que: se não tivesse quebrado a cara naquele momento, nunca teria descoberto a possibilidade de reabilitação. Digo, de novos cortes de cabelos, de ter vistos cabelos mais bonitos, de ter ousado desenhar outras tatuagens e de ter andado na garupa de outras motos.

A escolha é nossa. Não é porque está doendo que não vai sarar.

É algo como andar de bicicleta: você cai, machuca e jura nunca mais montá-la. Mas passado o susto, o primeiro impacto, você tentará de novo (pode ser que demore algumas horas, dias, meses). Pode ser que nesse momento  queira usar um capacete, uma joelheira, uma cotoveleira para se proteger e recomece a dar pequenas pedaladas, indo de quarteirão a quarteirão, sempre na reta e próximo ao meio fio. Até que, novamente, você tenha vontade de sentir aquela brisa no rosto, a mesma de quando estava em uma determinada velocidade e se arrisque um pouco mais e tenha coragem de descer o morro outra vez.




Moon of the Day