sexta-feira, 31 de maio de 2013

Cada aeroporto um nome no papel


"Como dizer adeus para alguém que você nunca imaginou sem?"


Tenho pensado em você e em pontes aéreas. Nesses salões, nesses vãos enormes onde  transeuntes se esbarram e seguem para seus destinos. Naquele som alto vindo de todos os lugares, sexos,cores, nacionalidades e trejeitos.  Tantos estranhos. Tantos olhares.

Tenho pensado em você e em pontes aéreas. E na incerteza do lugar, porque geralmente, quem embarca, por mais que esteja bem, costuma trazer lembranças, mesmo quando se leva na mala somente novas promessas.  E o significado de aeroporto é um tanto quanto capcioso: terreno vasto, com disposição e instalações apropriadas à partidas e chegadas.

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Estava ali, tinha que esperar agora seu embarque. Nada melhor que procurar um local mais confortável para sentar-se.  Melhor seria n’algum que  ninguém pede licença para passar, ou que passasse em cima, ou que não passasse. E nesse instante, em poucos passos, pensou em sua estante, nos livros que foram escolhidos pelo tom, pela capa, pelo nome, pelo prefácio e um pelo epílogo. Era bom ler. Devorar livros, entrar em seus países e sentir parte da história. Livro bom, para ela, era exatamente aquele que não fazia perceber que era madrugada, que não fazia perceber que te chamavam, que a história  era sua, ou mais, que o autor escreveu a ti. Era assim antes. Antes deles terem a maldita ideia de lerem juntos, um para o outro.

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Ele estava sentado ali, bem ao lado, e levantou o olhar quando ela adentrou ao café, mas foi direto para as prateleiras de livros. Achou graça em seu óculos e no modo como ela arrastava sua mala. Gostou dos cabelos longos, sorriu. Bebeu um gole de seu cappuccino e voltou a observá-la. Enquanto ela passava o indicador nos títulos e folheava alguns. Levantava a sobrancelha, torcia a boca e punha-os de volta em seus lugares. Engraçada, para onde vai? Seria bom ouvi-la lendo, pensou.

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Ela procurava algo para ler, mas não queria escolher por escolher.  Aquele livro seria seu amigo por algumas longas conexões. E livro mesmo, torna-se amigo para a vida toda, por isso não queria ser displicente. Pensou em antes. Pensou no quanto gostava de ler para aquele cara e quando descobriram isso, num leve impulso após amassarem os lençóis, tornou-se hábito. Escolhiam a  maioria juntos e embora tinham dito que cada um leria um  capítulo, geralmente, ela era os olhos e a boca do autor, enquanto ele eram os olhos para ela, sua voz rouca e suas coxas. Para quê lerei, se leio você. E voltar a escolher um livro sozinha, após esses costumes, tornava-se tudo mais difícil, entendiante. Mas não impossível.

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Ele tinha esperança que ela se sentasse no café. Puxaria papo? Faria com que ela percebesse seu olhar? Mas não o fez, ela não se sentou. Viu-na escolher um livro de capa azul, ao mesmo tempo levantar os pés e sorrir, e pagá-lo, junto com um café sem açúcar e também sem adoçante para viagem. Levou consigo alguns guardanapos. E ele, para observá-la melhor pagou seu cappuccino e seguiu em direção.

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Se ele estivesse aqui eu leria para ele. Se ele estivesse aqui decerto leria para ele. Leria para ele esse livro de capa azul. Eu leria para ele desde a primeira vez que eu o vi. Talvez por isso nos demos bem. Porque éramos livres e líamos um para o outro. Eu podia olhar para o lado e ele ia acompanhar meu olhar. E se tivesse alguém bonito, como apareceu agora esse homem em minha frente, eu olharia e ele sutilmente  me diria que também tinha gostado, só para me fazer desviar o olhar. E eu iria gargalhar e dizer que  o dividiríamos então. Esse era o nosso jeito. Então, ao invés de ler, procurou por papel para escrever. E tudo começou ali, com o guardanapo da cafeteria.

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Ele não tirava o olho. Tem cara que gosta de ler, pela forma como passava os dedos na prateleira. Mas agora começou a escrever. Queria que ela lesse para mim esse livro de capa azul. São os dedos, os olhos, os óculos. São os olhos atrás do óculos. E ainda tem essa mecha de cabelo que teima em cair.  Ela está ali, sentada na minha frente, remexendo na bolsa e começa a tirar tudo de dentro procurando por algo. Uma caneta. Ela pegou uma caneta e se inclina, apoiando o guardanapo no livro. Estou completamente curioso com essa forma em minha frente. Quem compra um livro com tanto zelo, quer logo começar a ler, e não a escrever. Por que aqui, no aeroporto? Todos os aeroportos são iguais. Pessoas e mais pessoas indo e vindo. É que a gente nunca deve é olhar.

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Tinha percebido sua presença. Mas o que ela queria mesmo saber era se ainda conseguia ler. Eu ainda consigo ler sozinha? Eu ainda consigo ler para mim? Quando se tem um hábito, começar outro, ou quebrar o primeiro, costuma trazer certa ansiedade e desconforto. Eu tinha um dragão em casa, e enquanto derrubávamos jarras e copos, fagulhas e corpos, a gente lia. A gente se lia. E eu tinha o mapa mundi desenhando por ele. Dos meus pés até a minha artéria femoral. Na verdade formávamos a pangeia e tudo entorno era nossa pantalassa. E podíamos mergulhar. Tu me salvas, perguntei.  Linda, você é quem me ensinou a nadar, ele dizia. Mas agora, tu sabes, dizia rindo! E nosso lençol caia por cima, enquanto ele virava meu barco.  Disso eu tenho saudade, dos nossos livros. E de nossas férias.

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Talvez ela ainda se lembre de nossas férias. De nosso abril. Tomara. Ela não pode esquecer assim. Será que ela me esqueceu? E se por impulso ela começar a ler para outro? Não. Quero tirar isso de minha mente. Aqueles olhos castanhos, aqueles lábios, aquela voz rouca. E se ela começasse a ler para outro, com a sua pontuação e entonação, ele logo se apaixonaria. Mas antes, se eles começassem a ler juntos, é porque ela já estava apaixonada. Ela não leria para mais ninguém que não tivesse despertado amor. Disso eu tenho medo. Quero de novo levá-la para as docas, quero de novo encostar em seu colo no banco da praça, quero vê-la descalça com os pés sobre os meus. Quero seus livros em meu colo, quero seu corpo em cima do meu. Mas, e se ela desistiu disso tudo, pois da última vez ela também levou o Neruda, o Walt Whitman e o Maiakovsky.  E se ela estiver agora em um aeroporto, pois ela escreveu e avisou que partiria, e se ela estiver sentindo vontade de ler a alguém? E se lá, ela encontrar, em um café, Meu Deus, como ela ama aqueles cafés amargos! E se ela encontrar alguém que queira ler para ela? E se ela quiser ler para ele? No aeroporto há várias histórias  prontas para serem contadas, conhecidas, entregues, escritas. E ela deve estar lá, sentada em um canto confortável, com seus óculos e um café. Eu sempre ficava meio bobo lendo a sua boca. Será que você está perdida, por não ter ninguém para ler? Ou será que nesse momento eu teria que fazer outras de minhas brincadeirinhas, quando percebia que ela estava admirando outro homem mais bonito e dizia também que  gostei, só para ela voltar seus olhos a mim?

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Se ele estivesse aqui, leria para ele. Se ele estivesse aqui. Mas não está, oras.Tenho que me acostumar. Tenho que parar de lembrar de nossas férias, de nossa doca, de nosso corpo. Tenho que parar de lembrar de seu sorriso e de sua voz. Tenho que remar. Estou em um aeroporto e isso demais me assusta. Estou  sentada aqui, com meu livro de capa azul, sem conseguir abri-lo e a minha frente, me olham, segurando um guardanapo. E o meu papel acabou. E o rosto dele, se você também o visse é do jeito que se apaixonaria, sorri timidamente. Nesse instante ele  caminha e senta-se ao lado. Será que eu lerei para ele?


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Perguntarei a ela, essa menina de óculos se ela precisa de mais papel. Sentarei ao seu lado e mesmo que ela não leia para mim, acompanharei a forma de sua boca, tácita. E se ela me permitir, tomarei o livro de sua mão e escolheremos um outro juntos. Os aeroportos são sempre um mistério.

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