sábado, 17 de janeiro de 2015

Uma casa


"Regresso devagar ao teu 

sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
não é nada comigo. Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade"

Manuel Antonio Pina 



Hoje, pela manhã, recebi esta foto de um grande amigo com os seguintes dizeres: "saudade de você aqui". Para quem não sabe esta era a casa onde morei por quase cinco anos. Minha casa em Barbacena.

Sorri. Senti saudades. Remexi inquieta na memória. Ali fui muito feliz.

Hoje, senti saudade do girassol que costumava colocar à janela. Das noites quando eu costumava comprar uma garrafa de vinho para tomar na varanda ouvindo música ou quando cozinhava algo novo para quem vinha.

Lembrei-me dos "sociais" (nomes adotados para as festinhas). Alguns começavam pós prova às oito da manhã, pois merecíamos comemorar as possíveis notas ou esquecer alguns desastres. Lembrei dos nossos churrascos na varanda com a churrasqueira emprestada do Grilo, depois ganhada de presente.

Lembrei das noites viradas de estudos (nosso Oba Oba), com colchão na sala, sofá de dois lugares que cabiam três ou quatro e janelas e portas abertas no verão; ou no inverno, com os mesmos amigos e um aquecedor (sempre com café forte para alguns e energéticos para outros e sorrisos e sonhos).

Ali, naquela varanda encontrei um pé de sapato endereçado a mim, sem remetente, com os seguintes dizeres: “onde está a Cinderela?”. Sorri, peguei o bilhete, enfiei dentro da bolsa e joguei o pé de sapato fora. Isto antes das sete horas da manhã.

Ali, naquela porta, quando a tetra chave não quis abrir e eu tinha que sair para uma prova, liguei para um amigo para que ele tentasse abrir a porta por fora para mim. Sem conseguirmos e faltando menos de dez minutos para a prova, pulei a janela.

Ali, naquela escada costumávamos sentar para conversar. Ou tomar cerveja, vinho ou tequila. E quando os vizinhos faziam algo éramos convidados e o dia passava, o sol se ia e a noite caia.

Ali, dancei de madrugada, acordei atrasada e fui de pijama para aula.

Ali, eu chorei escondido e molhei toda a casa. Alguns também já choraram ali. E sorriram também. Muita das vezes fazíamos tudo junto. E conselhos dávamos mutuamente porque quando se mora sozinha, criamos laços de amizade.

Ali, vai ser sempre o nosso Pelourinho (apelido carinhoso adotado pelos diversos estudantes que passaram pela Faculdade de Medicina, em alguma das dez quitinetes coloridinhas da esquina da faculdade).

E na véspera em que me mudei e vi a casa toda embalada para ir para o internato e minha voz ecoou dentro de meu lar, meus olhos quiseram marejar, pois ali eu realmente vivi intensamente.

Hoje, quando ganhei essa foto, o dia todo foi de nostalgia. Foi pensando com carinho em Barbacena. E eu acredito que somente quem viveu ali, de todas as turmas passadas pela faculdade entendem do que eu estou falando e sentindo. E aos que não foram para o internato ainda, quando chegar o momento saberão também.

Decerto, ali, fui muito feliz: em minha casa e em Barbacena.

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