sábado, 21 de maio de 2011

O AMOR NO COLO


A dor não pede compreensão, pede respeito. Não abandonar a cadeira, ficar sentado na posição em que ela é mais aguda.

Vejo homens que não têm coragem de terminar o relacionamento. Que não esclarecem que acabou. Que deixam que os outros entendam o que desejam entender. Que preferem fugir do barraco e do abraço esmurrado. Saem de mansinho, explicando que é melhor assim: não falar nada, não explicar, acontece com todo mundo.

Encostam a porta de sua casa (não trancam) e partem para outra vida.

Não é melhor assim. Não tem como abafar os ruídos do choro. O corpo não é um travesseiro. Seca com os soluços.

Não é melhor assim. Haverá gritos, disputa, danos. É como beber um remédio, sem empurrar a colher para longe ou moldar cara feia. É engolir o gosto ruim da boca, agüentar o desgosto da falta do beijo.

Será idiota recitar Vinicius de Moraes: "que seja infinito enquanto dure". A despedida não é lugar para poesia.

Haverá uma estranha compaixão pelo passado, a língua recolhendo as lágrimas, o rosto pelo avesso. Haverá sua mulher batendo em seu peito, perguntando: "Por que fez isso comigo?"

Haverá a indignação como última esperança.

Haverá a hesitação entre consolar e brigar, entre devolver o corte e amparar.

Vejo homens que somente encontram força para seduzir uma mulher, não para se distanciar dela.

Para iniciar uma história, não têm medo, não têm receio de falar.

Para encerrar, são evasivos, oblíquos, falsos. Mandam mensageiros.

Não recolhem seus pertences na hora. Voltarão um novo dia para buscar suas coisas.

Não toleram resolver o desespero e datar as lembranças. Guardam a risada histérica para o domingo longe dali.

Mas estar ali é o que o homem precisa. Não virar as costas. Fechar uma história é manter a dignidade de um rosto levantado, ouvindo o que não se quer escutar. Espantado com o que se tornou para aquela mulher que amava. Porque aquilo que ela diz também é verdade. Mesmo que seja desonesto.

Desgraçadamente, há mais desertores do que homens no mundo.

Deveriam olhar fora de si. Observar, por exemplo, a dor de uma mãe que perde seu filho no parto.

O médico colocará o filho morto no colo materno. É cruel e - ao mesmo tempo - necessário. Para que compreenda que ele morreu. Para que ela o veja e desista de procurá-lo. Para que ela perceba que os nove meses não foram invenção, que a gestação não foi loucura. Que o pequeno realmente existiu, que as contrações realmente existiram, que ela tentou trazê-lo à tona. Que possa se afastar da promessa de uma vida, imaginar seu cheiro e batizar seu rosto por um instante.

Descobrir a insuportável e delicada memória que teve um fim, não um final feliz. Ainda que a dor arrebente, ainda é melhor assim.




A gente achou esse texto a cara de alguns relacionamentos nossos. Relacionamentos esses, que colocamos vários ponto finais, gerando reticências mal acabadas. Então, fica assim, o dito pelo não dito...na esperança de um dia colocar um ponto final também em nosso coração.

6 comentários:

  1. é...infelizmente muitos relacionamentos não acabam, ficam mal acabados, sempre na esperança de um ponto final, mas este ponto final acaba nunca chegando... Então vamos levando a vida, outras histórias acontecem, mas sempre há a lembrança do que não deve-se fazer nestes novos momentos... Ainda bem que aprendemos com os erros, então tentamos não repetir tudo que desagradou novamente....

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  2. "Amor é muito pessoal. Não se explica. Não requer motivo. Talvez aquilo que seja o inferno para os outros seja o éden para mim. Nem procuro mais disfarçar as manchas..."

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  3. "Amor é muito pessoal. Não se explica. Não requer motivo. Talvez aquilo que seja o inferno para os outros seja o éden para mim. Nem procuro mais disfarçar as manchas..."

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  4. Algumas pessoas não merecem o amor que recebem. Não que não mereça por ser uma pessoa ruim. Mas apenas por não saber o que fazer com ele. E se vc não sabe o que fazer com o amor de uma pessoa, você não merece ser amado. Vivamos feliz Marcianas! Vocês são lindas e esses relacionamentos de quem disseram nada mais foi uma faculdade. O diploma, o amor livre, está por vir! Se é que já não chegou e vcs ainda não o transformaram em um post!

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  5. É...
    Conheço essa dor...
    Os finais com reticências.
    Conheço essa dor de cor e salteado.
    Passei por todas as fases dela.
    A primeira fase aguda.
    Era a que mais queimava.
    Parecia fogo líquido....
    A segunda.
    Nem parecia dor. Lembrava mais um vazio. Um nada.
    E finalmente a terceira.
    Sentir a dor diminuir até ficar quase (disse bem!)... Quase insignificante.....
    Vai passar!
    Tudo passa.
    O que não passa é pensar que as pessoas que causaram a dor continuam aí. Da mesma forma. causando dores em outras pessoas.
    As pessoas precisavam aprender a se relacionar.
    Com coração não deveria se brincar.

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  6. Adorei. Ainda prefiro as brigas, as palavras ásperas do que o silêncio falsamente carinhoso.

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