terça-feira, 21 de outubro de 2008

Lembranças - Parte II

Deveria ter sido postado no dia 13, porém, tantos foram os sentimentos e em tão grande intensidade que somente hoje consegui:

Certo, hoje, a vó Altina, finalmente embarcou no trem que ela tanto falava. Hoje, ela não chegou à estação atrasada e o maquinista deve ter sido meu avô Raimundo, o marido dela, o Müller, como ela costumava dizer.
O trem veio silencioso, bem de manhãzinha, às 6:30 em ponto. Aposto que no mesmo vagão ela reencontrou quem não via há muito. E ficou feliz também, pois pôde abraçá-los. E o meu avô, o maquinista, finalmente reencontrou a sua mais ilustre passageira.

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A vó tinha todo seu jeitinho especial. Com ela crescemos e passamos, todos os filhos (incluindo genros e noras), netos (e posteriormente bisnetos), as férias inteiras, prolongadíssimas, todos os anos e os Natais. E ela gostava daquela sensação de casa cheia, lembrando o interior, pois o apartamento ficava pequeno... E ela sorria, e nunca reclamava das nossas bagunças! Como também nunca reclamava das várias e várias jarras desaparecidas e encontradas no balaio alguns caquinhos ou dos vários chuveiros que ela era obrigada a repor em uma única férias, por conta dos netos que adoravam tomar banho em trupe na banheira da carijós, e não sei por que e nem como toda vez um queimava o chuveiro... E na hora de sair da banheira, coisa da tia Leda (que se encontra com a vovó) esperava na porta, "em fila", e uma chinelada na bunda dos que iam passando... "porque eu avisei que nao pode tomar banho esse tanto de gente junta... E daqui a pouco todos pro banheiro de novo, mas agora, um por um, porque vcs ainda estão sujos e com sabão!"

Um dia, ela pos a Bidu e eu para dormirmos na cama dela enquanto a vó passaria a noite dormindo no sofá! Ela não tinha deixado nós irmos para o forró, e como havia uma desconfiança que "essas meninas vão sair de madrugada, é melhor colocá-las comigo pois aqui todo mundo dorme, e enquanto vocês estão indo com o fubá eu ja voltei com a broa..." e nós passamos a noite inteira na cama da vó! Mas mesmo brava ela sempre sorria... Aliás, corrijindo: ela so perdia um pouquinho da paciência comigo e com a Bi! De resto, ela sempre sorria! E nós adorávamos ouvir as histórias que ela nos contava... Sempre fazendo pausas para cheirar rapé "pois isso é que deu fim a minha sinusite" e acrescentando: é o que também viciou a maioria dos filhos, netos, genros, noras, namorados e agregados...

Ela estava serena, como se tivesse dormindo... e que dali a pouco iria acordar e pegar seu crochet e ligar o rádio e sentar na cama e ficar conosco... Quando anoiteceu, e a família toda estava reunida (lembrando os velhos festejos) a lua estava cheia e haviam várias estrelas sobre nós... A noite estava plausivelmente agradável... Fora esse sentimento de perda, de um vazio interior, meio sem limite que invadia a todos... Pois mesmo sabendo que com 93 anos ja se viveu bastante, não queríamos deixá-la partir, também. Além disso a casa ficara tão grande e o quarto dela (onde nós mais costumávamos ficar, na cama, no sofá, em pé, sentados no chão...) ficara pequeno demais pra todos nós. Conquanto, seu sorriso, seu carinho, paciência, educação, sabedoria foram passados a nós... Em sua bela imagem, e cada um que a teve por perto, guardou para si grandes momentos...

E naquela noite eu pensei muito em uma frase de Guimarães Rosa:

"As pessoas não morrem, ficam encantadas!"

12 comentários:

  1. Ah Lá!!! Como me lembro das chineladas do banho da Tia Lêda e de dormir com a vó e rir a noite inteira!

    Isso vai ficar pra sempre!
    Fomos as mais sortudas do mundo por sermos netas dela!

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  2. nossa que lindo e intenso tudo aqui, adorei :)

    ótima semana!

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  3. quee nindoo aki :)
    1º vez e voltareeii viu?? auhhuauha

    beejoo

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  4. Juro pra você que me emocionei.
    Que lindo o texto, intenso...
    Sem palavras .__.".

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  5. Hoje é a Larissa néé? Belo texto primaa! Emocionante... me arrependo das férias que ela pedia para eu passar aí e não fui, me arrependo das vezes que liguei e ela me chamava para ir praí e eu nunca fui... com certeza,apesar dos 93 aninhos, a gente nunca quer que uma pessoa parte! Ela agora deve tá rindo desse textinho aqui né? Bom é isso. Super beijos primaas! (Y)

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  6. q linduuu...

    queria tanto ver vcs apanhando de chinelo...hauha brincadeira!!hauhauha

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  7. Lala e Ruiva;verifiquei agora que são duas as bonitonas que escrevem neste cantinho, as duas me visitaram também, retribuo com carinho.
    É Lindo quando netas(os)sabem reconhecer o valor dos avós, é verdade que tambem existem muitos avós ausentes, mas isso acontece com todas as coisas e casos.
    A AVÓ é por assim dizer uma Mãe substituta, já o Avô e embora o possa ser também, mas não é tão usual nem nunca tem a mesma forma de lidar e cuidar dos netos como o faz uma AVÓ.
    Não posso infelizmentedar o meu parecer do que foram para mim os avós na medida em que só conheci uma e um e mesmo esses partiram quando eu ainda era muito novinho.
    Mas quem tem o previlégio de ainda os ter e de saber reconhecer a sua importãncia na vida é de LOUVAR quando deles se fala da forma como tu aqui o descreves.
    BEIJINHOS para as duas...

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  8. Olha.. gostei dos ares por aqui..
    voltarei...

    Bjs

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  9. Quero voltar sempre aqui...pois, gostei. Quando eu gosto é sempre...assim.
    Te linkei no meu bolg..viu

    Abração..

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  10. Realmente este é foi um dos melhores!! adoreii!!!

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